Ana Mello - escritora - contos, minicontos, poesia, Tira Bacana, Veredas, quadrinhos, haicai - Porto Alegre, Cachoeirinha, Rio Grande do Sul, RS

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Areopagítica - C.S. Soares

Jorge Luis Borges definiu o livro como uma extensão da memória e da imaginação. Creio que o livro também seja uma extensão das circunstâncias, pois muitas das maiores obras já produzidas foram obras de circunstâncias. Outra frase memorável de Borges é aquela que lembra como Platão via os livros: efígies que se julga estarem vivas, mas que, indagadas sobre alguma coisa, nada respondem. Sabemos que o ateniense também afirmou que as ideias residem em um mundo intangível e são construtoras fundamentais da realidade.

O livro-ideia alicerce do livro-objeto, morto como uma efígie, é uma interessante conjectura que admite variadas interpretações. O mesmo acontece com os livros que não abrimos, eles admitem diversas interpretações enquanto gravitam amistosamente no limbo do escrito e não lido, o que não significa que, ainda assim, tenham sido menos comentados. Que interpretação podemos extrair dos livros não publicados? É um direito inalienável do leitor, a escolha de não ler um livro, direito que não pode exercido, com liberdade, sobre um livro cuja publicação tenha sido sabotada. O direito de publicação também é inalienável. Houve épocas em que livros foram proibidos, censurados e destruídos. Um livro é sempre um símbolo que designa um signo, é algo que representa outra coisa para alguém. O que representa? Que coisa é essa? A quem interessa? Quando Heráclito conclui que o mesmo homem não pode atravessar o mesmo rio, porque nem o homem nem o rio serão os mesmos, ele fala de um devir que é o mesmo dos livros, dos autores, dos leitores e de seus signos.

Certos livros não são escritos apenas para serem lidos, mas também para serem interpretados e outros, obras de circunstância por seu próprio testemunho, são mais do que uma alegação, são uma execução inescapável de humanidade. Os livros que nada respondem não foram os livros de John Milton, o sonhador genial, por sua própria consciência recrutado para as lides polêmicas. Ele parece jamais ter admitido livros omissos. Os livros de Milton não são objetos absolutamente mortos, preservam o intelecto vivo de seus autores, são livros que dialogam, que semeiam ideias que, em condições apropriadas, também podem irromper tão fantasticamente quanto os guerreiros da mitologia grega nascidos dos fabulosos dentes de dragão plantados por Cadmo. Ideias são a principal substância da qual os livros são feitos.

Há uma perturbadora causalidade entre o sensível e o intangível que abala nossas superfícies sociais tão falazmente ordenadas. Entre o livro-sensível e a ideia-intangível é estabelecida uma relação de imitação, participação, comunhão ou presença. Há um alerta ao poder das ideias, semeadas nas páginas de Areopagítica, testemunho executório autopublicado por John Milton em novembro de 1644, no qual o autor sugere que livros são tão vivos e fecundos quanto os dentes semeados de um dragão mítico. Areopagítica, cujo nome deriva de Areópago, antigo tribunal de Atenas, é talvez a primeira defesa sistemática do direito à autopublicação da história. Milton identifica três áreas de tensão da publicação independente e do direito de imprensa que até os dias de hoje servem para torná-los controversos: a área política, a área empresarial e a área acadêmica. Não é muito difícil entender porque a tensão ocorre. Quando discutimos autopublicação mexemos com estruturas bem mais complexas do ponto de vista da organização de uma sociedade.

Para começar, a sobrevivência de um estado ideológico se articula no rígido controle das ideias, algo impossível se a autopublicação é permitida. No que diz respeito ao âmbito empresarial, sabe-se que opções viáveis de autopublicação debilitam o modelo de negócios usado há tempos pelas editoras, que se posicionam entre o autor e o publico, como porteiras do mercado editorial. Além disso, é inegável que autopublicação também desafia a noção estabelecida de que apenas autoridades credenciadas têm permissão de contribuir no debate e instrução públicos. John Milton, para quem livros jamais foram coisas absolutamente mortas, o estudioso das religiões, poeta, dramaturgo, orador e político inglês, escreveu e autopublicou Areopagítica, seu eloquente opúsculo, como uma das mais contundentes e apaixonadas defesas filosóficas do princípio e do direito à autopublicação e à liberdade de opinião e de expressão. 

 

Fonte: http://www.imaeditorial.com/escritordigital/

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