Ana Mello - escritora - contos, minicontos, poesia, Tira Bacana, Veredas, quadrinhos, haicai - Porto Alegre, Cachoeirinha, Rio Grande do Sul, RS

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Andórides são os autores do futuro?

Pagan Kennedy, jornalista do NY Times, contou no site do jornal que se deparou com um livro na Amazon chamado “Saltine Cracker”. Não fazia sentido “quem pagaria US$54 por um livro inteiramente sobre biscoitos perfurados?”, ele se perguntou. O livro era co-editado por alguém chamado Lambert M. Surhone e, de acordo com a Amazon, Lambert M. Surhone tinha escrito ou editado mais de 100.000 títulos, sobre todos os assuntos, de apicultura ao maior balde de cedro do mundo. Ele estava produzindo livros a uma velocidade que simplesmente não era possível para um ser humano.

Quem era Lambert M. Surhone? Olhando apenas para os números, você poderia dizer que ele é um dos autores mais férteis que já viveu. Mas ele sequer é humano. Existem hoje programas – robôs se você preferir – que podem reunir textos e organizá-los em um livro. Surhone poderia ser um deles.

O que quer que ele fosse, Lambert M. Surhone foi patrocinado por uma companhia alemã, a VDM Publishing. Além de vender livros convencionais, a VDM também produz milhares de brochuras todo ano usando conteúdo disponível gratuitamente na internet. Esses livros, ou produtos tipo livro, permanecem à espera do comprador distraído, alguém que possa pensar “Que bom, eu realmente precisava de um tomo de Lei de Spearman dos rendimentos decrescentes, então eu vou em frente e pagarei US$84″. E com um clique precipitado no botão “Adicionar ao carrinho”, o comprador pode pagar muito dinheiro por um livro que foi simplesmente requentado da Wikipédia.

A VDM Publishing bota um aviso na capa de seus livros avisando “conteúdo de alta qualidade de artigos da Wikipédia!” Ainda assim, nem todo comprador vê a observação. Bibliotecários, por exemplo, relatam que eles devem ser cuidadosos para evitar desperdiçar dinheiro em livros-robô. Leitores reclamam que os livros se espalharam como uma praga nas lojas online.

Mas a invasão de livros-robô é inquietante por outro motivo. Kennedy acha que não tem problema os robôs pegarem trabalhos indesejados – como limpar lixo nuclear. Mas como podemos ter permitido que eles se apropriassem de uma das mais gratificantes ocupações: a de autor?

O que nos leva de volta a Lambert M. Surhone. Poderia ele ser um robô? Lendo as letras miúdas, Kennedy seguiu a trilha dos livros de Surhone até um escritório da VDM na ilha-nação de Mauritius, na costa de Madagascar. Ele ligou. A essa altura, ele já o imaginava como um personagem de ficção e estava tentado a perguntar se ele teria vindo de um planeta habitado por robôs ou algo do tipo. Mas Kennedy nunca teve essa oportunidade. Ninguém atendeu o telefone.

Então, quando menos esperava, Surhone foi até ele. Um dia, um livro intitulado “Pagan Kennedy” surgiu no Barnesandnoble­.com, custando US$50. O editor chefe: Lambert M. Surhone. Kennedy comprou, é claro. Em poucos dias, o livro apareceu na soleira de sua porta. No interior do livro estava o artigo da Wikipédia sobre Pagan Kennedy, e depois uma coleção aleatória de wiki-textos levemente conectados à sua vida. Quase um quarto do livro era devotado à Dartmouth College, onde ele trabalhou há alguns anos. Ele diz que alguns dos textos são tão pequenos que talvez você precisasse de uma lupa para lê-los. O livro era, como advertido, conteúdo da Wikipédia.

Wolfgang Philipp Müller, diretor executivo da VDM, respondeu às insistentes perguntas de Kennedy. “Nossos wiki-livros são produzidos por um grupo de cerca de 40 editores”, contou Müller por e-mail. “Os editores começam no A e vão até o Z. Todo tópico que tenha bastante conteúdo para um livro é nosso alvo.” Ele disse que, no último ano, a companhia vendeu cerca de 3.000 wiki-livros – não muito. Ainda assim, com preços em torno de US$50, é provável que a companhia tenha bastante lucro com cada um.

Müller garantiu que os editores são humanos, mas muitos dos títulos desses livros sugerem a mente de uma máquina por trás do trabalho. É difícil imaginar uma pessoa assinando, por exemplo, um livro chamado “Anel de Armazenamento: Acelerador de Partículas, Feixe de Partículas, Accelerador Físico, Beamline, Síncrotron Australiano, Ciclotron, Imã Dipolo, Eletromagnetismo”. Também havia outros erros robóticos: um dos livros da VDM sobre a banda The Police vinha com uma ilustração de capa de oficiais de polícia reais.

Esses erros deixam a pergunta: Será que robôs poderão algum dia ser confiáveis para escrever romances, histórias, artigos científicos e sonetos originais? Por anos, especialistas em inteligência artificial tem insistido que máquinas podem ser bem-sucedidas como autores. Mas será que nós humanos gostaríamos de ler os livros-robô?

Kennedy consultou o economista e inventor Philip Parker, que vê um futuro brilhante para o computador como autor. Parker acredita que livros produzidos por I.A, produzidos em uma enorme quantidade de línguas, podem ser cruciais para a disseminação da literatura. Pense em fazendeiros em Malawi, que carecem dos mais básicos guias de agricultura em sua língua nativa. Parker falou sobre a necessidade de distribuir livros voltados para pessoas que falam línguas marginalizadas. “Uma coisa que está faltando é o próprio conteúdo - os livros de texto”, disse Parker, e a I.A. pode oferecer uma solução barata.

No final dos anos 90, Parker começou a usar um software de geração automática de texto para produzir tais livros. Mais recentemente, a Fundação Bill and Melinda Gates financiou o uso de I.A. de Parker para produção de relatórios do tempo para rádio em línguas locais.

Mas Chris Csikszentmihalyi, co-fundador do Centro para Mídia Cívica no Massachusetts Institute of Technology, é cético. “Você iria mesmo querer apostar sua vida no texto gerado por um robô? Imagine um livro sobre concertar o motor a diesel do seu trator. Se uma parte da informação está errada, você pode arruinar o motor. Fica ainda mais complicado quando você pensa em livros que dêem orientação médica.”

E, ele acrescentou, qual é o objetivo de usar inteligência artificial para simular o tipo de trabalho que humanos gostam? Se você quer gerar livros em muitas línguas, ele disse, “você pode usar o poder da diáspora de de Malawi ou Moçambique”, o exército de voluntários altamente educados que estão ansiosos por ajudar seus compatriotas. “Isso evita a necessidade da I.A.”

A própria internet oferece prova do enorme desejo humano de produzir texto – para exaltar, editar, eleger, redigir, destacar, opinar e instruir. Nós emitimos bilhões de comentários por dia. A VDM Publishing pode ter criado um nicho de negócios para si mesma, mas a longo prazo, Kennedy suspeita, os robôs vão ter dificuldade até para conseguirem colocar uma palavra na orelha de um livro.

 

 

Fonte: http://zonadigital.pacc.ufrj.br/

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